data centers

Nesta semana, estou acompanhando o TechCrunch Disrupt, em San Francisco, que reúne cerca de 10 mil empreendedores, investidores e executivos de todo mundo para discutir os próximos caminhos da tecnologia. Em meio às discussões sobre novos modelos, chips e agentes de inteligência artificial, um assunto apareceu repetidamente: energia.

Se engana quem pensa que a corrida relacionada à Inteligência Artificial se limita a quem desenvolve os melhores modelos ou fabrica os chips mais avançados. Isso é apenas parcialmente verdade, já que grande parte dessa corrida depende também de onde existe energia disponível para colocá-los para funcionar.

Isso deve redesenhar a geografia da economia digital nos próximos anos. Portanto, estamos diante de uma oportunidade histórica para o Brasil.

Observe, no entanto, que há uma diferença fundamental entre atrair data centers e conseguir desenvolver uma economia de IA nacional. Um data center instalado em território brasileiro não torna automaticamente o Brasil um protagonista da IA. Ele pode ser apenas infraestrutura localizada aqui para atender produtos, empresas e aplicações desenvolvidos em outros lugares.

A oportunidade é maior do que simplesmente trazer servidores para o País. É utilizar a nossa capacidade energética para transformar a nossa capacidade tecnológica. As duas coisas podem andar juntas.

A dimensão da demanda ajuda a entender por que essa discussão ganhou tanta importância. No relatório Energy and AI, publicado em 2025, a Agência Internacional de Energia estimou que o consumo global de eletricidade dos data centers pode passar de 415 terawatts-hora em 2024 para aproximadamente 945 TWh em 2030. A IA é apontada como o principal motor desse crescimento.

Não se trata apenas de produzir mais eletricidade. O problema central é conseguir disponibilizá-la no lugar e no momento em que as empresas precisam.

Segundo a mesma agência, cerca de 20% dos projetos planejados de data centers podem enfrentar atrasos caso os gargalos do setor elétrico não sejam resolvidos. Um dos caminhos possíveis seria instalar novos data centers justamente nas regiões onde já existe capacidade energética e de rede disponível.

Essa restrição já aparece nas decisões das próprias empresas de tecnologia. E é nesse novo mapa que o Brasil pode ganhar relevância.

Segundo o Balanço Energético Nacional 2026, da Empresa de Pesquisa Energética, fontes renováveis responderam por 86,8% da matriz elétrica brasileira em 2025. O Brasil também tem sobra de energia, o que poderia ajudar a suprir a necessidade de novos projetos na área.

Esses dois aspectos somados trazem um grande diferencial para o país. Em um momento em que empresas de tecnologia precisam expandir sua capacidade computacional e, simultaneamente, reduzir a intensidade de carbono de suas operações, essa composição pode se tornar uma vantagem relevante.

Mas é importante não simplificar demais essa equação.

Ter energia no sistema não significa ter energia disponível onde um data center precisa ser construído. Uma reportagem recente do Brazil Journal mostrou exatamente esse paradoxo: enquanto existe sobreoferta de energia eólica e solar em partes do Nordeste, a preferência de muitos projetos continua concentrada no corredor entre São Paulo e Campinas, próximo aos grandes mercados consumidores e em locais com infraestrutura digital mais robusta.

Em outras palavras, não basta ter geração. É necessário combinar energia, transmissão, conectividade, terrenos adequados, estabilidade regulatória e velocidade de implantação.

Um exemplo anedótico mencionado durante o TechCrunch Disrupt ilustra o peso das diferenças regulatórias nessas decisões. Enquanto em alguns estados americanos os processos de autorização para instalar um data center podem levar anos, em outros determinadas aprovações podem ser obtidas em poucos dias. A diferença mostra como a agilidade regulatória pode se tornar um fator competitivo na atração de novos investimentos em infraestrutura.

Mas essa relação entre localização e infraestrutura digital não começou com a inteligência artificial.

Na Hostinger, vimos isso de forma bastante concreta quando passamos a disponibilizar servidores no Brasil. A decisão foi motivada pela crescente demanda de clientes locais e pela possibilidade de hospedar sites e ter servidores mais próximos dos usuários brasileiros, reduzindo latência e melhorando o desempenho. A infraestrutura brasileira passou também a atender usuários de outros países da América Latina.

Era uma decisão de infraestrutura para a internet tradicional, não exclusiva para inteligência artificial. Mas o princípio é semelhante: a localização física da computação importa.

Com a IA, porém, a escala dessa discussão muda radicalmente. Os investimentos são maiores, a demanda energética é muito mais intensa e a disponibilidade de infraestrutura pode começar a determinar onde novos polos tecnológicos surgirão.

O Ceará oferece um exemplo interessante dessa aproximação entre infraestrutura energética e digital. O projeto de data center de uma Big Tech anunciado para o Complexo do Pecém prevê a combinação do empreendimento com nova capacidade de geração eólica e solar. É uma tentativa de aproximar o lugar onde a energia é gerada do lugar onde uma enorme quantidade de computação será consumida.

Se movimentos como esse se multiplicarem, o mapa tecnológico brasileiro também poderá começar a mudar.

Mas existe uma segunda pergunta, talvez mais importante: o que queremos construir ao redor desses investimentos?

Data centers movimentam capital, construção, energia, equipamentos e serviços. Tudo isso é relevante. Mas uma parte importante do valor econômico da inteligência artificial estará também nas empresas que desenvolverem serviços sobre essa infraestrutura.

Se a eletricidade brasileira alimentar data centers que executam aplicações criadas no exterior para empresas estrangeiras, teremos capturado uma parte importante da oportunidade que nos avizinha. Se essa mesma infraestrutura também permitir que startups brasileiras tenham acesso competitivo à computação, que universidades desenvolvam pesquisa, que profissionais sejam formados e que empresas multinacionais criem soluções para problemas brasileiros, o impacto será muito maior.

É por isso que não deveríamos medir o sucesso dessa estratégia apenas pelo número de data centers anunciados.

Sugiro acompanhar também quantas empresas brasileiras e empresas com operações no país conseguem acessar essa capacidade computacional, quantos fornecedores locais surgem ao redor desses projetos, quanto conhecimento técnico permanece no Brasil e quantos novos produtos e negócios são criados a partir dessa infraestrutura.

Há poucas décadas, estar perto de petróleo, portos ou grandes centros consumidores ajudava a definir onde determinadas indústrias se instalavam. Na economia da IA, disponibilidade de energia e capacidade de processamento provavelmente irá exercer influência semelhante.

O Brasil tem uma vantagem importante para participar dessa reorganização como mencionei anteriormente. Mas vantagens naturais não se transformam automaticamente em vantagens econômicas.

A energia pode colocar o país no novo mapa global da inteligência artificial. O desafio é garantir que não sejamos apenas o lugar onde a computação acontece, mas também um dos lugares onde a tecnologia e os negócios construídos sobre ela são criados.

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