
Já comentei algumas vezes que entrei na Hostinger como copywriter. A missão era relativamente simples no papel: fazer o blog da empresa crescer e atrair clientes por meio de marketing de conteúdo.
Lembro até hoje de algumas das primeiras pautas que escrevi. Uma delas explicava a diferença entre hospedagem compartilhada, servidor dedicado e VPS (Servidor Virtual Privado). A analogia que eu gostava de usar era a de imóveis. Um servidor dedicado é como ter uma casa inteira só para você. A hospedagem compartilhada lembra um grande galpão onde várias empresas trabalham lado a lado, separadas apenas por baias, dividindo praticamente toda a estrutura. Já o VPS funciona como um prédio de apartamentos: todos compartilham a mesma construção física, mas cada morador tem seu próprio espaço, com privacidade, recursos reservados e liberdade para organizar tudo do seu jeito.
Outra pauta, talvez a mais desafiadora, mergulhava justamente no que tornava esse “prédio” possível: os processos de virtualização, explicando tecnologias como OpenVZ e KVM. Era um assunto fascinante para quem gostava de infraestrutura… e um excelente remédio para insônia para todo o resto do planeta.
Na época, eu tinha certeza de que aquele seria um dos artigos menos lidos da história da internet. Afinal, convenhamos: poucas pessoas acordam pensando “hoje vou entender como funciona virtualização de servidores”.
E, de certa forma, eu estava certo.
Naquela época, servidor ainda era coisa de nicho
Contratar um VPS ainda era algo bastante nichado. Era uma solução voltada principalmente para desenvolvedores, administradores de sistemas e pessoas mais técnicas. Além de contratar o servidor, o cliente precisava configurá-lo praticamente na unha: conectar via PuTTY, acessar o terminal, instalar dependências, configurar firewall, resolver conflitos…
Era quase um ritual de iniciação.
Ou, traduzindo para quem nunca passou por isso: você comprava um servidor e ganhava um curso intensivo de Linux de brinde. Ou seja, não bastava querer usar um servidor. Era preciso gostar dele. Tratar com carinho.
A primeira grande mudança começou em 2023, quando passamos a simplificar esse processo. A Hostinger lançou instalações com um clique para diferentes sistemas operacionais e painéis de controle, reduzindo bastante a complexidade do onboarding. Mesmo assim, os casos de uso continuavam relativamente parecidos: hospedagem de sites, aplicações, bancos de dados e alguns projetos específicos.
O verdadeiro ponto de inflexão veio em 2024: foi quando lançamos um template de instalação do n8n com apenas um clique.
Quando o n8n encontrou o brasileiro
Na época, talvez nem imaginássemos o tamanho da onda que estava se formando.
O n8n caiu como uma luva para um mercado brasileiro completamente obcecado por automação. De repente, milhares de empreendedores queriam integrar sistemas, automatizar WhatsApp, conectar CRMs, criar fluxos inteligentes e economizar horas de trabalho manual.
Quando eliminamos a barreira de instalação do n8n, percebemos algo interessante: a demanda já existia.
O sucesso do n8n mostrou que o mercado estava procurando uma forma simples de colocar novas tecnologias para funcionar.
Foi aí que percebemos que a oportunidade era muito maior.
Agentes de IA
Nos anos seguintes, ampliamos esse conceito para outras soluções voltadas ao universo da Inteligência Artificial. Ferramentas como OpenClaw e Hermes Agent passaram a estar disponíveis com instalação simplificada em VPS, permitindo que desenvolvedores e empreendedores criassem agentes inteligentes sem transformar a configuração da infraestrutura em um projeto paralelo.
Pode parecer apenas uma melhoria de produto, mas existe uma mudança importante por trás disso.
Durante muito tempo, criar um agente de IA exigia dominar uma série de conhecimentos que não tinham relação direta com Inteligência Artificial. Era preciso entender Linux, Docker, redes, certificados SSL, configuração de servidores, dependências e uma infinidade de detalhes técnicos.
É como se alguém dissesse que, antes de aprender a dirigir, você precisasse montar o motor do carro. Quanto mais reduzimos essa barreira, mais pessoas conseguem experimentar, aprender e construir aplicações reais.
Os números refletem exatamente essa transformação.
Na Hostinger Brasil, a base de clientes pagantes de VPS cresceu mais de 200% em todos os meses do primeiro trimestre de 2026, na comparação anual. Considerando o primeiro semestre, a receita da categoria avançou 210,4%.
Além disso, o perfil dos clientes também mudou.
O VPS deixou de ser apenas o lugar onde um site fica hospedado. Ele passou a ser a infraestrutura que sustenta agentes de IA, automações, integrações e aplicações inteligentes. Em outras palavras, deixou de ser um produto para “colocar um site no ar” e passou a ser uma plataforma para construir negócios.
Muito além do produto
Acredito que as pessoas precisam entender o que uma determinada tecnologia resolve, conhecer casos de uso, trocar experiências e, principalmente, enxergar outras pessoas construindo coisas interessantes com ela.
Foi exatamente com esse objetivo que trouxemos o ClawCon para o Brasil. Ao longo de cinco cidades, reunimos desenvolvedores, empreendedores, criadores de conteúdo e entusiastas para discutir agentes de IA, automação e o futuro desse ecossistema.
Mais do que apresentar o OpenClaw, a ideia era mostrar possibilidades. Em praticamente todas as edições surgiam pessoas perguntando como criar um agente para responder clientes no WhatsApp, automatizar processos internos, integrar sistemas ou construir pequenos produtos usando IA. O interessante é que a conversa rapidamente deixava de ser sobre a ferramenta e passava a ser sobre o problema que ela resolvia.

Tive a oportunidade de palestrar em algumas dessas edições e uma coisa ficou muito clara para mim: a maioria das pessoas não estava procurando “mais uma ferramenta de IA”. Elas queriam entender como aplicar essas tecnologias em problemas reais e ganhar produtividade.
Esse tipo de conversa mostra que a Inteligência Artificial está vivendo uma transição importante. Durante muito tempo, ela foi tratada quase como um espetáculo tecnológico. Todo mundo queria assistir às demonstrações impressionantes.
Agora, ela começa a entrar na fase em que realmente muda negócios.
É quando a pergunta deixa de ser “o que essa IA consegue fazer?” e passa a ser “como eu coloco isso para funcionar na minha empresa?”
Curiosamente, essa segunda pergunta quase sempre termina no mesmo lugar. Em algum servidor VPS.
Quando a imprensa percebeu
Esse movimento ficou tão evidente que deixou de ser assunto apenas dentro das empresas de tecnologia.
Recentemente, o Canaltech publicou uma reportagem mostrando como a corrida por agentes de IA está aquecendo o mercado de servidores virtuais. A matéria reúne dados de diferentes empresas do setor e mostra que essa transformação não é exclusiva da Hostinger, mas de toda a indústria.
Confesso que achei isso particularmente interessante. Durante muito tempo, falar de VPS parecia assunto de quem passava o dia olhando logs de servidor. Hoje, a pauta chegou à imprensa de tecnologia porque deixou de ser uma discussão sobre infraestrutura e passou a ser uma discussão sobre Inteligência Artificial.
O próprio levantamento mostrou que o VPS deixou de ser uma demanda exclusivamente ligada à hospedagem tradicional. Hoje, ele é cada vez mais utilizado para criar automações, integrar sistemas, operar agentes de IA e desenvolver aplicações próprias. A infraestrutura deixou de ser um fim e passou a ser um meio.
O melhor servidor é aquele que você esquece que existe
Olhando para trás, é curioso pensar que um dos primeiros artigos que escrevi na Hostinger explicava como funcionava um VPS para um público extremamente técnico.
Hoje, o desafio é explicar para o público geral por que tanta gente passou a precisar de um.
Essa é uma grande prova de que estamos vivendo uma mudança de paradigma. A Inteligência Artificial não criou apenas novos softwares. Ela criou uma nova demanda por infraestrutura.
E, curiosamente, quanto mais essa infraestrutura consegue desaparecer da experiência do usuário, mais pessoas conseguem inovar.
No fim das contas, talvez a melhor tecnologia seja justamente aquela que você quase esquece que existe.